“Um homem é feito das coisas que ele se lembra e das coisas que ele esquece.”
— Amos Oz, A Tale of Love and Darkness.
A citação de Amos Oz, mestre da literatura israelense, nos convida a uma introspecção profunda e inescapável. “Um homem é feito das coisas que ele se lembra e das coisas que ele esquece” não é apenas uma observação poética; é um convite à compreensão da complexidade da existência humana. Nossa identidade, essa tapeçaria intrincada que chamamos de “eu”, não é tecida apenas pelos fios vibrantes das memórias que celebramos, mas também pelos tons pálidos e os buracos deixados pelos eventos que se dissiparam ou foram deliberadamente deixados de lado. É um reconhecimento da dinâmica intrínseca entre retenção e desvanecimento que molda a própria essência de quem somos.
Pensemos nas narrativas pessoais que construímos. Desde a infância, começamos a selecionar, muitas vezes de forma inconsciente, os momentos que formarão o alicerce de nossa percepção de si. Aquele primeiro dia de escola, uma vitória esportiva, a dor de uma perda, um conselho de um mentor — estas são as pedras angulares que nos parecem definir. Mas e as incontáveis manhãs cinzentas, as conversas triviais, os pequenos aborrecimentos diários que simplesmente se evaporam da consciência? Esquecê-los não é uma falha cognitiva, mas muitas vezes uma necessidade, um mecanismo vital que permite à mente humana evitar o colapso sob o peso esmagador da informação excessiva. É, em essência, a curadoria da alma, filtrando o que é fundamental do que é meramente acessório.
A seletividade da memória é, ademais, um ato de autopreservação. Traumas passados podem ser enterrados não para serem negados, mas para permitir que a vida continue com alguma medida de sanidade. Ressentimentos antigos, desavenças insignificantes, erros que preferiríamos não revisitar — o esquecimento, nesse contexto, pode ser um bálsamo, uma permissão para seguir em frente. Em nossas relações pessoais, é a capacidade de “esquecer” pequenas ofensas, de não remoer cada deslize, que permite a continuidade do afeto e da convivência. Quem nunca perdoou e seguiu em frente, optando por não reavivar a dor de um incidente? Essa é a beleza sutil do esquecimento construtivo, que pavimenta o caminho para a resiliência e a renovação dos laços.
Contudo, a reflexão de Oz vai além da mera utilidade prática do esquecimento. Ela sugere que o esquecimento não é apenas a ausência da memória, mas uma parte integrante da sua constituição. Assim como o silêncio é parte essencial da música, dando forma e contorno às notas, o esquecimento dá forma e contorno ao que recordamos. É no contraste entre o que está presente e o que está ausente que a paisagem da nossa alma se revela em sua plenitude. O que escolhemos lembrar e o que permitimos que se dissipe é um reflexo profundo dos nossos valores, dos nossos medos e das nossas esperanças, um mapa não apenas do que vivemos, mas do que escolhemos guardar como significativo.
No cotidiano, vemos isso manifestado nas tradições familiares, onde certas histórias são contadas repetidamente, tornando-se mitos fundadores, enquanto outras, talvez menos lisonjeiras ou relevantes para a identidade familiar desejada, caem no esquecimento. Vemos isso nas histórias que os países contam sobre si mesmos, escolhendo heróis e eventos a serem celebrados e negligenciando outros que poderiam complicar a narrativa nacional. A identidade coletiva, assim como a individual, é uma construção dinâmica e contínua de memória e amnésia seletiva.
Reconhecer que somos feitos tanto do que lembramos quanto do que esquecemos é abraçar a complexidade da condição humana com uma mente mais aberta e compassiva. É entender que nossa autenticidade não reside apenas na perfeição da recordação, na capacidade de reter cada detalhe, mas também na sabedoria de deixar ir, de liberar o que não serve mais. Ao final, somos a soma desses fluxos e refluxos, a tapeçaria que se revela não pela quantidade de fios, mas pela maneira como eles se entrelaçam e, por vezes, se separam, criando padrões únicos e irredutíveis. Essa compreensão nos convida a uma observação mais generosa de nós mesmos e dos outros.
Diante dessa perspectiva, como você avalia o papel do esquecimento em sua própria jornada e na construção de sua identidade?
Sobre o autor
Amos Oz (1939-2018) foi um dos maiores escritores israelenses, voz proeminente por sua prosa lírica e engajamento pela paz. Nascido em Jerusalém, sua obra, marcada pela história complexa de Israel, explorou a memória, a identidade e os conflitos humanos com uma sensibilidade ímpar. Autor de romances e ensaios aclamados, como “Uma História de Amor e Trevas”, capturou as nuances da alma humana em tempos turbulentos, tornando-se um ícone da literatura mundial e um eterno candidato ao Nobel.
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